domingo, 3 de maio de 2020

Quarentena de Despedidas

Frases para a mãe - Mensagens de aniversário, Dia das mães e Luto

Oi Pessoal, como estão?!

Aqui em Sampa todos estão sofrendo com a quarentena. O sofrimento é a rotina de ter que ficar em casa, sem poder sair, com um tremendo medo de pegar o tal do Corona Vírus. Além disso, pessoas estão sendo mandadas embora (devido a ausência de trabalho em setores que não podem funcionar por não serem serviços essenciais) e o colapso econômico é praticamente inevitável. Além disso, quando observamos o mundo, é muito triste ver o quanto a população está sendo dizimada por esse vírus, que tem levado a óbito milhares de pessoas. (Sim sr. Presidente do Brasil, não é uma gripezinha não...Uma "gripezinha" não mataria milhares de pessoas e tem cura, ao contrário do Corona, que até o momento, não tem.)

Enfim, é um momento difícil no mundo, e mais ainda, para minha pessoa e família.

Minha mãe veio a óbito em 21/04/2020, após ficar 5 dias na UTI. Ela tinha uma saúde debilitada, era do grupo de risco. Tinha diabetes, rins fragilizados, e um pequeno problema no coração. Ela passou mal na quarta feira a noite, 15/04/2020, e estava vomitando e tendo diarréia. Na manhã de quinta feira, minha irmã a levou ao pronto socorro, e meu pai também foi, tendo em vista que dias atrás ele estava com sintomas de gripe. Ambos foram examinados, e foram diagnosticados com o Corona Vírus. A mãe estava com 70% do pulmão comprometido, e meu pai com menos que 25%. Meu pai pôde retornar para casa, tratar em casa com Cloroquina/Azitromicina, e minha mãe teve que ficar internada. Ao ficar internada, ela teve que ser submetida ao processo de hemodiálise, tendo em vista que ela não conseguia urinar, devido ao comprometimento dos rins. Na noite de dia 21/04, durante a hemodiálise, ela teve uma parada cardíaca e faleceu.
Por ser Corona Vírus, não pudemos dar à ela um enterro decente. Ela não teve direito a velório, e o enterro era destinado a apenas no máximo 10 pessoas, vagas que quis destinar às irmãs dela, minhas tias. Porém, por elas serem do grupo de risco, também não foram.
Quem foi no enterro, foi eu, minha irmã, meu cunhado e meu pai, que ficou em estado de choque, mal acreditando no que estava acontecendo.

Simplesmente, meu coração está partido em mil pedaços. Minha família idem, e eu nem consigo imaginar a dor do coração de meu pai, que viu sua companheira que conviveu com ele por 40 anos vir a falecer.

O que me mais me dói foi o fato dela não ter tido direito à uma despedida. Não vimos seu rosto já falecido, pois o caixão estava lacrado. Não pudemos apertar suas mãos e beijar sua testa na UTI, dizendo que tudo ia ficar bem e que estávamos lá ao lado dela. Simplesmente, ela se foi, de forma tão rápida e brutal, que mal tivemos tempo de dizer ADEUS.

Se eu não fosse Espiritualista, certamente ficaria muito revoltada. (Embora eu reconheça que esteja sendo tomada pela raiva em muitos momentos, não serei hipócrita!) E certamente, a dor me consumirá por muitos e muitos dias de minha vida, até a minha própria morte ocorrer. É aquele tipo de cicatriz na alma, que nunca mais irá embora. (E isso bem eu sei, pois minha irmã mais velha faleceu em 2007, já é o segundo falecimento na família.)

Mas, fico refletindo que, de certa forma, não há como sair do mesmo jeito dessa Quarentena.

Pensamos que iremos voltar à nossa rotina assim que a Quarentena acabar. Mas,o vírus tirou muito de nós. Ele tirou nossa liberdade, nossa saúde, nossa estabilidade emocional, e para alguns o dinheiro, o sustento. Para outros, a sanidade mental.

Creio eu como Espiritualista, que o objetivo era esse mesmo. Tirar nosso chão, para enxergarmos coisas que não queremos. Enxergarmos de uma vez por todas, o que é importante para nós. O que de fato, precisamos mudar em nós mesmos, em nossas vidas.

E além disso, estimular nossa Gratidão. Palavra tão esquecida, e tão pouco usada pelas pessoas. Não temos o hábito de agradecer pelas pequenas coisas. Não temos o hábito de agradecer à Deus pela comida, pelo trabalho, pela família que temos (mesmo com os defeitos dela, pois todo mundo tem), pelos amigos que vemos cotidianamente, pela possibilidade de caminhar na rua livremente, sem temer o desconhecido, temer pela própria vida.

Simplesmente, NÃO DAMOS VALOR À VIDA. E a questão que fica nessa Quarentena, pelo menos para mim, é: O que preciso mudar? Em mim mesmo, na minha rotina, para ser mais próxima de minha essência, e de Deus? 

Não há muito para onde correr. A vida nos obriga a encarar a realidade. A vida nos obriga a encarar nossos medos, nossos defeitos, a tirar por um instante a famosa "lente cor de rosa" que usamos diariamente, para ver profundamente o que precisa ser mexido interiormente.E o que precisa ser priorizado, pois a vida é breve. Muito breve.

Não há tempo mais a perder com superficialidades. E quem não entendeu isso, mais cedo ou mais tarde, irá aprender. (Pois tem pessoas que estão 'fingindo' para si mesmas de que nada está ocorrendo.) 

Da minha parte, com a Quarentena, retornarei ao ofício da escrita. Me faz muito bem, e é uma daquelas características que a gente sabe que nos torna únicos, e simplesmente deixamos de lado por qualquer outro motivo banal.

Obrigada à todos(as) que foram empáticos com nossa dor. Não há palavras para agradecer aos cuidados que recebi pelo Whatsapp, pelos telefonemas com palavras de conforto, pelos áudios de frases cheias de carinho e motivação.

São por conta dessas pessoas, que eu posso dizer que vivo hoje. Que eu sou quem eu sou. Sempre digo à Deus, que essa é a coisa que mais sou grata - pelas amizades maravilhosas que conquistei ao longo do caminho. O amor dessas pessoas me faz prosseguir. 

E eu quero sair da Quarentena apesar da Dor, com muito mais Amor à Vida. Se essa é a lição, eu quero aprender. 

-Sempre - Com amor,

Karen Thiemi